Foto Colunista

POR Xosé Hermida

“Os valores democráticos são o nosso viés”

Destaque / 07.12.17

Por Bárbara Hellen, André Bengel, Naief Haddad e Priscilla Nery

O jornalismo ainda está vivendo uma das  maiores crises de seu modelo de negócio, mas ninguém nega a sua importância. Nesse momento, destacam-se veículos inovadores capazes de gerar engajamento e ir além da notícia.

Um deles é o El País Brasil, recém-chegado (há apenas quatro anos por aqui), com uma redação enxuta: 18 entre repórteres, jornalistas e colaboradores.

Na contramão da maior parte dos veículos vindos do impresso, o leitor não precisa pagar nada para ler – e talvez por isso, se destaque entre o público jovem preocupado com causas sociais. Conversamos sobre o veículo com Xosé Hermida, diretor do El País Brasil.

Como vocês escolhem os temas que serão pautados pelo El País? Existem pautas apenas brasileiras?

Sim! A gente funciona em dois braços. O primeiro é a tradução de matérias publicadas no “El País” da Espanha, que achamos que podem ser interessantes para o público brasileiro. Temos uma empresa de tradução que traduz essas matérias e depois são revisadas com critérios jornalísticos pela nossa equipe.

O trabalho principal dos repórteres aqui é fazer matérias brasileiras. Escolher pautas, fazer coberturas… Se vocês conferirem o nosso site, vocês acharão que na maioria dos dias, as notícias principais costumam ser matérias brasileiras. Mas isso depende muito do dia a dia.

BH – Vocês também produzem várias matérias mais políticas, mais voltadas para esse assunto…

Tem muita matéria política? Tem, tem muita! E às vezes demais. Mas a gente tenta colocar holofote em outras questões, por exemplo, questões sociais, como a questão de gênero. Coisas que a gente tenta abordar e acompanhar muito. Questões ambientais… Mas os temas políticos e sociais, sim, são o cerne do nosso trabalho. Temos ainda um repórter de esporte e uma repórter voltada pra economia, mas não representa a maior parte da nossa produção.

BH – Ou seja, uma linha editorial voltada para abordar sempre temas político-sociais. Essa abordagem de vocês tem algum viés?

A gente tenta não ter um viés! Enfim, mas você nem sempre consegue isso. Mas uma das nossas bandeiras é tentar ser o mais isento possível, tentar fugir da polarização política. O El País na Espanha nasceu em 1976.  A Espanha teve uma ditadura que durou tempo demais, 40 anos, e acabou em 1975. E o EL País foi um jornal que nasceu com a democracia na Espanha. Foi um jornal que esteve muito vinculado com a nova Espanha democrática. Sempre foi um jornal que tenta estar muito engajado com os valores democráticos, que aquela nova Espanha tentava construir. Então, os valores democráticos são o nosso viés. Se fazem parte dos valores democráticos a defesa da igualdade dos gêneros, a defesa das orientações sexuais…

BH – E eu até te pergunto, ir por esse viés não seria uma linha um pouco mais esquerdista?

Muitas pessoas acabam ligando a isso. Mas eu acho que uma pessoa por defender a igualdade entre os gêneros ou por defender a liberdade de escolher a sua opção sexual, não faz parte necessariamente da esquerda ou direita. Por exemplo, semana passada publicamos uma matéria com o prefeito de Manaus, que é do PSDB, que fazia uma defesa econômica de direita, mas também defendia casamento gay e legalização da maconha. Então, para a gente é uma defesa de valores democráticos e embora muitas pessoas relacionem isso com a briga entre direita e esquerda, a gente não coloca isso na esquerda. Isso é a defesa da democracia.

BH – Quem é o leitor do El País?

Nossa audiência está muito no Sudeste e no Sul: SP, RJ, MG, RS, PR. É um público muito urbano, com uma cultura cosmopolita, com interesses culturais e engajado com esses valores democráticos que a gente tenta defender. É também a tradição do “El pais” na Espanha. É também um público, em geral, jovem. Mas não posso indicar dados específicos. Temos menos audiência no resto do país, como no Nordeste, mas a gente tenta melhorar.

BH – Qual matéria ou assunto que mais bomba?

No ano passado, com certeza, o impeachment foi muito acompanhado. Tivemos um aumento de audiência importante com impeachment e as Olimpíadas. Teve uma matéria muito lida que não era exatamente brasileira, mas estava feita nas páginas e tinha uma relação com o Brasil, que foi os problemas do Neymar no Paris-Saint Germain.

Nem sempre as questões da corrupção e das crises políticas do governo são as mais acompanhadas e de fato a gente percebe que o público está um pouco de saco cheio disso. Mas, por exemplo, tudo o que tem a ver com a reforma trabalhista foi muito acompanhado e questões como aborto.

BH – Quando vocês chegaram ao Brasil, qual foi a ideia para se diferenciar em meios a veículos já consolidados?

Em um primeiro momento, achávamos que poderíamos trazer notícias sobre o resto do mundo. Também achávamos que o El País poderia trazer um pouco dessa cultura de muito engajamento, essa ideia da democracia que vai além de votar nas eleições, na liberdade de expressão… Um engajamento em falar das questões de gêneros, raciais, a partir da cultura jornalística do jornal. Que talvez as pessoas podiam gostar de um veículo novo com alguns pontos de vista, com algumas perspectivas e com algumas formas de trabalho diferentes. Ir além da cobertura do dia a dia e tentar fazer um jornalismo mais interpretativo. Contextualizado. Mais analítico.

BH – Sobre o modelo de negócios. Como é que vocês se sustentam?

O EL País não tem edição impressa e tem um modelo de negócio digital que é totalmente gratuito, a gente não cobra por matéria. Na Espanha ainda tem uma edição impressa e para América que fala espanhol tem também uma edição impressa. Aqui, já desde o primeiro momento, o jornal nunca pensou em fazer uma edição impressa, a ideia era fazer uma edição digital. Uma das coisas diferentes do El País é, se você comparar com outros jornais importantes do mundo, que o conteúdo digital não tem pay wall…É totalmente livre.

Os impressos são muito dependentes da publicidade. Com a publicidade tradicional você não consegue viver. Os modelos de negócio na internet ainda não estão muito desenvolvidos. Enfim, todo mundo ainda está procurando a solução mágica. Acho que ninguém no mundo tem ainda a solução e por enquanto é uma procura. A gente está procurando também novas formas de publicidade, temos branded content e os eventos, que são uma maneira de você ter receita porque sempre tem patrocinador e também é uma maneira do jornal também fazer parte do papel dele que também é fazer debates, discussões.

Share on Facebook9Tweet about this on Twitter

Deixe uma resposta

*

ARQUIVOS

BH NO INSTAGRAM

FOLLOW @BARBARAHELLEN

BH NO FACEBOOK