Foto Colunista

POR Amanda Fontes

Você Confia no Outro?

Destaque / 05.12.17

O Brasil enfrenta a sua mais profunda crise de confiança”. Com essa frase, o advogado Ronaldo Lemos, em palestra no WIRED Festival , trouxe-me a constatação da qual eu há muito já desconfiava: ninguém acredita mais em ninguém.

Segundo ele, o economista Max Rosen em 2014, saiu às ruas com a seguinte pergunta: “Você confia nos outros?”

No Brasil, apenas 6,3% dos entrevistados teriam respondido que SIM, o que coloca o país no rol de nações com os menores índices de confiança do planeta, perdendo apenas para Colômbia, Trinidad e Tobago e Filipinas. Para se ter uma ideia da discrepância, na Noruega o índice seria de 77%, na China de 60% e nos Estados Unidos de 40%.

A propósito, dia desses, senti na pele a atmosfera de desconfiança que paira sobre nós.

Eu saí cedo de casa. Ouvia Carla Bruni no som do meu carro e dirigia calmamente pela Avenida dos Holandeses, na altura do Auguri Café, ou um pouco depois disso, sentido Calhau – Ponta d’Areia.

De repente, vi um carro luxuoso dar ré inadvertidamente em direção a um senhor, de seus 70 e muitos anos, que atravessava desatento a avenida. O carro estava estacionado em frente a uma lavanderia e, por ironia do destino, avançou sobre o senhor exatamente quando ele colocava o primeiro pé na calçada.

Não é preciso dizer que o baque foi suficiente para atirá-lo contra o chão.

Imediatamente, converti o carro à direita e estacionei. Com o coração saltando pela boca corri em direção ao senhor, que ainda no chão parecia sofrer de alguma confusão mental. Vi que a vítima carregava consigo, além de duas sacolas com pães, um celular. Por sorte, a última ligação seria de Joana Filha*.

Retornei a chamada imediatamente para avisá-la sobre seu pai. Não quis assustá-la. Afinal, apesar de tudo, o acidente não parecia tão grave. Ao atender o telefone, ela primeiro me disse que não conhecia o tal senhor. Num segundo momento, perguntou-me como seria ele. Senti que ela não acreditava em mim. Achava que podia ser o golpe do sequestro, ou mesmo um truque novo, fruto da malévola criatividade humana.

Insisti muito. Disse meu nome, telefone, profissão e até onde trabalhava para que ela acreditasse. Desligou.

No local, já tinham chegado outras pessoas e nós tentávamos descobrir o nome e o endereço do tal senhor. Porém, já com a idade bem avançada, ele não dizia coisa com coisa.

Ligamos para o 191. Mas mesmo assim eu insisti na ligação para a filha. Não é possível! Eu estava inconformada por viver esses estranhos tempos…

Tive a ideia de mandar pelo Whastapp fotos dele sentado à espera da ambulância. Ela me retornou a ligação, pediu desculpas e agradeceu. Ele sofria de catarata e provavelmente não enxergou o veículo. Eu soube depois que tudo ficou bem.

Porém, o acontecido despertou em mim uma profunda reflexão sobre a crise de confiança que nos acomete.

No lugar dela eu poderia ter pensado a mesma coisa. São tantos os indícios de que não devemos confiar nos outros: golpes, pirâmides financeiras, corrupção sistêmica, remédios falsificados, charlatanismo…

Porém, assumir isso é algo que realmente me revolve o estômago.

Michael Kosfeld, professor de administração de empresas na Universidade de Frankfurt, afirma que a confiança é uma parte biologicamente inerente ao ser humano. “Quando não há confiança ficamos, em certo sentido desumanizados”.

É! Me sinto menos humana. Afinal, quem no Brasil confia no Congresso? Nos políticos? Na mídia? Na democracia? No sistema tributário? Na burocracia? Na Justiça? E nos representantes em Brasília, quem acredita?

Num ambiente em que um não confia no outro, nada funciona. Menos negócios são firmados, o dinheiro não circula, não há investimentos. A propósito, pesquisas demonstram que há direta correlação entre confiança e desenvolvimento econômico.

Os dados apontam que quanto maior a credibilidade das pessoas e das instituições, mais riqueza, oportunidades e qualidade de vida um país produz.

Sendo assim, se você achar o tempo todo que o outro quer te passar para trás, será impossível costurar relações complexas e duradouras, que são essenciais para sustentar uma economia saudável, positiva e vigorosa.

Nesse contexto, Ronaldo Lemos afirma que a tecnologia pode ser uma ótima saída para esta crise.

Ele fala em “trustless trust”, ou seja, confiança sem confiança.

É o sistema utilizado por empresas como Airbnb, Uber e Couchsurfing. Os usuários constroem uma reputação ao longo do tempo. Não se trata de uma análise subjetiva, mas de um score de credibilidade, formado a partir das avaliações.

Por isso, a frase tão proferida pela geração X: “Não entre em carro de estranhos e não confie em ninguém”, foi substituída pela máxima “use a internet para entrar no carro de um estranho”.

Além do mais, Lemos afirma que, num futuro próximo, será muito útil à utilização de uma tecnologia chamada Blockchain (grave esse nome!).

“Ela é uma espécie de ‘livro registro’ digital. É uma tecnologia barata que permite armazenar informações publicamente, de forma única, imutável e flexível. Em outras palavras, é uma máquina de gerar confiança, elemento cada vez mais em falta não só no Brasil, mas no mundo”.

É nesse contexto, que a tecnologia demonstra ser um bom caminho para nos tirar dessa cilada. Afinal, lá atrás, ela até já me foi útil para comprovar à filha do senhor combalido que eu dizia a verdade.

_____________

Amanda Fontes tem 26 anos, é advogada e graduada em Direito pela Universidade Federal do Maranhão. Curiosa e buscadora, ama desenvolver habilidades, sem caixa para descrição. Tem paixão pelas palavras e por sua capacidade de construir pontes. Afinal, quem não se comunica, se trumbica.

_____________________________________________________________

Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do Site BH. Possibilitamos que o leitor conheça opiniões diversificadas sobre os assuntos em pauta nas mídias sociais. Sempre iremos expor visões diferentes para que o leitor se questione, questione o mundo ao seu redor e, principalmente, corra do senso comum. Quer ver o seu texto por aqui? Mande para redacaositebh@gmail.com

Share on Facebook6Tweet about this on Twitter

Deixe uma resposta

*

ARQUIVOS

BH NO INSTAGRAM

FOLLOW @BARBARAHELLEN

BH NO FACEBOOK