Foto Colunista

POR Vitória Colvara

Muito além do seu prato

Colunistas / 20.11.17

A sociedade está mudando numa velocidade incrível. Ao escrever esse texto, sentada de frente para uma enorme estante de livros, me dou conta de que alguns deles eu ainda não li, outros enjoei antes da metade, mas a grande maioria eu devorei com a mesma intensidade com a qual devoro um hambúrguer.

“Sério que você come carne?” “Nossa pelas suas publicações eu jurava que você era vegana”. É o que ouço num tom que ainda não soube identificar. Às vezes soa como se eu tivesse decepcionado alguém pelos meus hábitos, noutras soa como se a pessoa tivesse um trunfo sobre mim: “AHÁ, quer dizer então que a senhorita não é vegana? Ora, ora.” Não, não sou vegana. Depois de ler dos mais clássicos aos mais modernos autores que escrevem sobre o direito dos animais, de onde surgiu a ideia do veganismo, e participar de diversos congressos sobre o tema, pude entender o que é realmente ser vegano.

O veganismo enquanto um movimento e uma filosofia de vida, tem como bandeira principal o abolicionismo animal. Abolir significa parar, definitivamente, de explorar qualquer animal para satisfação de necessidade humanas. E aí está incluído aquele rímel bafônico testado em coelhos, aquela bolsa de couro que você ama e até mesmo o seu filhotinho fofinho comprado em um pet shop.

Mas o que está acontecendo então?  Por que tantas pessoas tem se declarado veganas a ponto de até empresas de fast food, como Mc Donalds e Burger King, terem lanches veganos? Pois bem, o nome disso é tendência de moda e de mercado. Pode também ser chamado de green washing, ou seja, uma ilusão de ótica palpável que tem dado até mesmo à empresas como a Sadia e a Perdigão, um tom mais esverdeado.

O mercado está aí para atender as demandas do público. E o público está aí para aceitar que o mercado se aproprie de termos, causas e até mesmo lutas. O mesmo aconteceu com a palavra sustentabilidade que a meu ver, hoje em dia, é empregada de maneira indiscriminada e totalmente vazia do seu núcleo existencial.

Algumas pessoas argumentam que essa tendência poderia trazer, pelo menos, visibilidade ao tema. Mas, ouso em discordar, pois uma informação equivocada é tão danosa quanto à falta de informação. Lembro bem quando, em 2010, na Galeria do Rock em São Paulo, eu tive uma longa conversa com um vegano que me explicou todo o processo que o levou até chegar ao ponto de não consumir absolutamente NENHUM produto de origem animal ou que, em alguma das fases de sua cadeia produtiva, tenha explorado animais.

Muito radical? Concordo. Mas trata-se de um radicalismo necessário e que não comporta flexibilizações. Se tudo for vegano, então nada é vegano. Se você optou por não comer nada de origem animal, isso te torna vegetariano ou ovo-lacto-vegetariano (se você mantém os derivados do leito e o ovo na sua dieta). Termo que já existe há muitos e muitos anos e que é utilizado única e exclusivamente alimentação. Agora se você lê o rótulo de todos os seus produtos, se você não compra nenhum cosmético testado em animais (muitas marcas testam), se você não ingere remédios e fármacos também testados e se o seu guarda roupa guarda total coerência com a causa animal, aí sim, você pode se declarar vegano. Resumindo, o veganismo vai muito além do seu prato.

Todo mundo quer ter algum rótulo. Queremos pertencer a um grupo. Não nos permitimos pairar em mundos diferentes, experimentar sabores diferentes e discutir sobre o assunto com pessoas que pensam diferente. E nessa ânsia de autodeterminação, a gente se limita e fica totalmente à mercê do mercado que ao contrário de nós, tem se demonstrado bastante flexível.

Hoje, quando me perguntam, digo que sou extremamente sensível à causa e que tento, dentro das minhas possibilidades, fazer a minha parte, plantar alimentos, reduzir o consumo, reciclar meu próprio lixo, utilizar o transporte público, produzir cosméticos naturais, oferecer caronas, evitar fast food…  E se insistem em me enquadrar, eu jogo aquele clichê da Clarice Lispector que eu já decorei:

“Não quero me definir, quem se define se limita. Meu único limite é a minha consciência. Sei quem sou, mas prefiro não ter uma opinião formada sobre mim. O mundo está em constante mudança. Tenho princípios constantes, concretos, que se adaptam aos dias que passam. Eu sei o que quero, mas amanhã posso querer outra coisa, posso não querer mais nada. Tenho sonhos, objetivos, penso no futuro, mas sem complexidade.
O futuro é simples, depende do seu ponto de vista”

______________

Vitoria Colvara tem 25 anos muito bem vividos. Apaixonada por viagens, crianças e livros. Advogada, professora de espanhol, kitesurfista e escaladora, não necessariamente nessa ordem. Ambientalista de corpo, alma e coração.

_____________________________________________________________

Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do Site BH. Possibilitamos que o leitor conheça opiniões diversificadas sobre os assuntos em pauta nas mídias sociais. Sempre iremos expor visões diferentes para que o leitor se questione, questione o mundo ao seu redor e, principalmente, corra do senso comum. Quer ver o seu texto por aqui? Mande para redacaositebh@gmail.com

Share on Facebook11Tweet about this on Twitter

Deixe uma resposta

*

ARQUIVOS

BH NO INSTAGRAM

FOLLOW @BARBARAHELLEN

BH NO FACEBOOK