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POR Amanda Fontes

A minha versão Beta

Colunistas / 17.11.17

Estou sentada na poltrona 26C de um Airbus 321 operado pela Latam. Em meu colo repousa uma edição do livro “Vai Lá e Faz”, escrito pelo @Tiago Mattos.

Já li 154 páginas e não resisti em parar, refletir e escrever essas linhas. São muitos inputs para pouca Amanda. O meu HD não suporta. Com licença, preciso fazer um backup.

Sem papel e caneta à mão, vai no bloco de notas do meu fiel companheiro: o celular.

Caiu a ficha. Foi assim, de repente, mas fruto de um processo longo.

Há tempos eu repito pra mim que sou extremamente perfeccionista (sabe aquela frase dita entre os dentes de um sorriso insosso para parecer que tudo o que a gente faz é muito bom?)

Pois é.

Porém, o que eu achava ser um ponto positivo, mostrou-se um verdadeiro limitador do meu poder de executar.

Percebi que o excesso de planejamento revela, em verdade, um medo absurdo de errar.

Isso, por sua vez, demonstra que se você for pensar em todas as consequências possíveis e inimagináveis, provavelmente nunca fará um mochilão, não desengavetará aquele projeto que faz teus olhos brilharem e, jamais, em hipótese alguma, pedirá demissão.

Em tempos de revolução digital, vale ter como parâmetro a versão Beta. Trata-se de um estágio de desenvolvimento de softwares.

É quando simplesmente se lança o produto no mercado, mesmo que não esteja perfeitamente acabado. A nomenclatura Beta, então, é apenas um aviso aos usuários de que possíveis falhas no sistema ocorrerão.

Assim, a lógica é que o cliente possa experimentar e te dar um feedback, de modo que você faça as melhorias necessárias.

No livro do Tiago, ele cita que em 2005, a ZDNET cunhou o termo Beta perpétuo. Que seria a mentalidade de estar em constante melhoria e não considerar o produto terminado nunca.

Pah… Uma luz se acende! Reflete sobre mim…

Então, em vez de eu rodar o software do perfeccionismo, que tal instalar perpetuamente no meu sistema a versão Beta?

Parece uma boa ideia.

Tudo faz sentido. Serve para produtos, também serve para a vida.

Afinal, vive-se uma realidade não linear, multidisciplinar e exponencialmente imprevisível. A linha de chegada é uma tremenda incógnita, meio turva, pois fatores variados interferirão nos planos, já que não se pode ter um planejamento estático para um sistema dinâmico (cada vez que você mexe a sua peça de xadrez, o tabuleiro se movimenta de forma inesperada).

Segundo Bauman, vivemos tempos líquidos. Tudo é fluído. A solidez ficou pra trás. O tempo entre o clique do botão e a captura da imagem é suficiente para deixar escapar uma grande transformação.

Por isso, em tempos de redes sociais e da glamourização da vida comum, perceber-se imperfeito é, por vezes, um catalisador da angústia.

Contudo, aprendi (há algum tempo já, confesso!) que ter anseios de perfeição é um fardo muito pesado para se carregar. Aceitar que podemos errar (e talvez até devêssemos) é acolher nossas vulnerabilidades e lutar para superá-las.

Por isso, adotar um sistema Beta nos faz desenvolver um Mindset de evolução. Afinal, remoer os erros do passado nos encarcera num loop infinito de dor, remorso e culpa.

Logo, aprendi (com os meus próprios tropeços) que cada falha é uma grande oportunidade de criar uma versão melhor de mim mesma.

Como diria Thomas Edison: “Eu não errei. Só descobri mil formas de como não fazer a lâmpada”.

Por isso, “o analfabeto do século XXI não será aquele que não sabe ler e escrever, mas quem não tiver a capacidade de aprender, desaprender e reaprender” (Alvim Tofler).

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Amanda Fontes tem 26 anos, é advogada e graduada em Direito pela Universidade Federal do Maranhão. Curiosa e buscadora, ama desenvolver habilidades, sem caixa para descrição. Tem paixão pelas palavras e por sua capacidade de construir pontes. Afinal, quem não se comunica, se trumbica.

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