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POR Bárbara Hellen

Escolha não ser ultrapassado

Colunistas / 09.11.17

Não há mais espaço para racismo e assédio. Os diversos exemplos de casos envolvendo pessoas públicas que aparecem na mídia – e suas consequências para aqueles que poderiam ser considerados intocáveis, mostram o tipo de sociedade que estamos construindo. É preciso ter atitude para mudar a realidade. E é preciso não parar de agir até que o padrão seja exceção.

Em exemplos recentes, aqui no Brasil, o apresentador William Waack foi flagrado, em um vídeo feito no intervalo de um noticiário da TV Globo, despejando, em tom discreto, comentários racistas – comentários que foram recebidos com ar de riso pelo colega de cena. Lá nos Estados Unidos, o grande ator Kevin Spacey se tornou pequeno a frente das acusações de assédios sexuais feitas por diversos atores – que unidos, não se calaram.

Escândalo feito, atitudes tomadas. No Brasil, a Globo afastou o apresentador de suas funções. Já nos Estados Unidos, o Netflix foi além: demitiu o ator e tem trabalhado para desvincular a imagem dele de sua marca– tendo, inclusive, excluído Kevin de todas as imagens promocionais de House Of Cards.

William Waack tem 65 anos, enquanto Kevin fez 58 em julho. Ambos são de uma geração na qual racismo e assédio não eram temas debatidos, e muito menos gerava qualquer consequência real. Isso jamais será justificativa, mas é o retrato de uma sociedade em que assédio e racismo foram, durante muito tempo, algo aceitável, tolerável. E como ela não pode voltar a ser.

O interessante é que Waack trabalha com comunicação, tendo acesso a toda essa onda de mimimi (muito bem-vinda) que alerta sobre os preconceitos inconscientes que temos e que precisamos mudar. Já Kevin, trabalha com o cinema, massivamente utilizado para conscientizar e debater sobre temas relevantes. Quantos filmes e seriados que relatam assédio existem?

Mas, lembrando aquele ditado que diz que quando apontamos um dedo, temos os outros voltados para nós mesmos… todos nós temos preconceitos e somos preconceituosos. De maneira consciente ou não. Basta uma autoanálise ou um alerta de um amigo, para que possamos ter consciência do que expomos com a fala. Se não houvesse toda essa onda de conscientização, jamais teríamos percepção de quão errado é. E continuaríamos a ser exatamente iguais, a excluir minorias e a constranger pessoas.

Vale lembrar que, no Brasil, a lei 7.716, que tornou inafiançável e imprescritível o crime de racismo, foi sancionada em 5 de janeiro de 1989, há quase 28 anos. Quando falamos de assédio, as leis ainda continuam brandas, mas também estão aí. Apesar de existir leis que obrigam a mudar hábitos infelizes e preconceitos descabíveis, não é muito mais fácil mudar por bem? É uma escolha nossa. Podemos ser novas pessoas, nos adaptando às novas gerações, ou podemos sofrer na pele as consequências das nossas atitudes arcaicas.

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Bárbara Hellen é jornalista. Trabalha no ambiente digital desde 2010, quando lançou um blog e, desde então, preferiu as nuvens aos papéis. Exceto na hora de escolher um livro para ler, quando abandona toda a modernidade. Acredita que qualquer boa conversa pode virar um bom texto e que são os sonhos que movem a vida – e por isso que até hoje nunca passou um dia sequer sem sonhar.

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