Foto Colunista

POR Amanda Fontes

“tempo, és um dos deuses mais lindos…”

Destaque / 11.10.17

Em sete de janeiro, fiz 25 anos. Exato um quarto de século. Mal pude assimilar a ideia, e os 26 já batem à porta. Teimo em não querer abrir. Não é possível que a vida esteja passando tão rápido assim.

Toc, toc, toc!

— Quem é? — pergunto.

— Sou eu, Kairós, — respondem de lá.

— E o que você quer? — rebato daqui.

— Vim te visitar. Como bom amigo que sou, quero lembrar-te que o tempo urge. Ele é um corcel indomado, sem rédeas, sem cela e sem cabresto. Segura-te firme nele e vá. Aproveite a jornada. Carpe Diem!

O telefone toca. Do outro lado da linha, minha mãe. Ela diz que anda com saudades e que preciso arrumar tempo para estarmos juntas. É o suficiente para trazer-me de volta ao mundo. Desligo.

Por um momento — antes de ser interrompida — imagino que conversava com Kairós, a personificação do tempo existencial.

Filho mais novo de Zeus, irmão de Chronos, ele simboliza a oportunidade do momento presente.

Uma pergunta ressoa em minha mente: mas o que é o tempo? Como arrumá-lo? Sei que o tempo não é nem um lugar e nem um momento, mas apenas um movimento. Hoje, não sou como eu era. Não sou como fui. Não sei o que serei.

Rubem Alves diria que o tempo se mede com batidas, sejam as do relógio, sejam as do coração. Pra mim, nessa grande viagem da vida, o que importa mesmo é o descompasso das batidas.

As palavras de minha mãe transportam-me à infância. Sou inundada por uma sensação premente de nostalgia. Posso sentir o cheiro da terra molhada, ver o sujo dos meus pés e sentir a água fria da piscina.

Hoje, dificilmente ando descalça, não jogo conversa fora, pouco mergulho em piscinas. Travo lutas homéricas com o relógio e sempre saio vencida. Corro e ele me alcança. Resisto e não desisto.

No mundo moderno, o tempo é um artigo de luxo. Afinal, o veredito nos foi dado: Time is Money. Apressem-se os que trabalham! Produzam, vendam, corram!

Pra mim, luxo mesmo é perder tempo. Ser indolente. Atrevida. É apegar-me a filigranas e contemplar o momento. Apurar o olhar pela vida.

Tempo é dinheiro? Vendê-lo sei que é possível, afinal é o que fazemos todos os dias. Mas comprá-lo de volta onde eu consigo?

Saudades eu tenho do tempo perdido. Digo, do tempo vendido.

E por que tanta pressa? Que sanha é essa pelo fim de semana que se avizinha? Teu prazer está lá ou cá? Para qual vida te açodas? Se tiveres outra, por favor, me avise.

O mundo adulto é diferente. Menos cor, menos graça, menos disritmia. A rotina encurta o tempo e faz dele seu algoz. A repetição intermitente das experiências resume o filme numa cena só, por vezes de cores esmaecidas.

A rotina condiciona o cérebro, que, em vez de esforçar-se para absorver algo novo, apenas busca a mesma lembrança no sótão empoeirado e rebobina a fita. Então, a sensação é de que você não viveu, não sentiu. Não existiu.

E aí a correnteza da vida te leva, sem que consigas sequer agarrar-te em seus cabelos. É o rebojo que te draga, num mergulho sem volta à superfície.

A finitude dá sentido à vida e quanto a isso não temos escolha. Mas a notícia boa é que há antídoto para desacelerar o tempo. Estancá-lo não será possível. Lo Siento. Mas fruí-lo você pode, se deixar de lado um pouco a fadada rotina.

Que tal conhecer lugares novos? Mudar o destino das férias de verão? Pôr uma mochila nas costas e desbravar esse mundão?

Parar de fazer tudo sempre igual é um caminho para cadenciar o tempo, sorvê-lo e contemplá-lo. Viajar é atravessar fronteiras, sobretudo, as mentais. Para onde? Não me importa, o que vale é podar a raiz.

Mudar é abraçar a imprevisibilidade da vida, acolher as diferenças e aproveitar o espetáculo. É amar sem hora pra acabar e certificar-se de que o pra sempre, sempre é o agora.

A regra é não ter regras. Afinal, tempo, tempo, tempo, tempo és um senhor tão bonito/ compositor de destino / por seres tão inventivo e pareceres contínuo/ és um dos deuses mais lindos/.

Carpe Diem!

_____________

Amanda Fontes tem 26 anos, é assessora de juiz e graduada em Direito pela Universidade Federal do Maranhão. Curiosa e buscadora, ama desenvolver habilidades, sem caixa para descrição. Tem paixão pelas palavras e por sua capacidade de construir pontes. Afinal, quem não se comunica, se trumbica.

_____________________________________________________________

Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do Site BH. Possibilitamos que o leitor conheça opiniões diversificadas sobre os assuntos em pauta nas mídias sociais. Sempre iremos expor visões diferentes para que o leitor se questione, questione o mundo ao seu redor e, principalmente, corra do senso comum. Quer ver o seu texto por aqui? Mande para redacaositebh@gmail.com

Share on Facebook22Tweet about this on Twitter

Deixe uma resposta

*

ARQUIVOS

BH NO INSTAGRAM

FOLLOW @BARBARAHELLEN

BH NO FACEBOOK