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POR Amanda Fontes

Como encontrar um jeito diferente de viver

Colunistas / 04.10.17

Meu avô foi um cara muito legal. Minhas lembranças dele são super atuais e a sensação é de que convivemos por uma eternidade. Infelizmente, não. Ele faleceu aos 63 anos.

Mas, lembro-me com clareza dos nossos dias juntos, de sua grande cicatriz no peito, fruto de uma cirurgia cardíaca e do jeitão de dizer que me amava — pois, ele sempre gritava de onde estivesse: Amanda, já disse que te amo, hoje? E eu respondia: Já, vô, umas trinta e cinco vezes.

Ele era grandão, truculento e nervosinho. Adorava contar piadas e tinha um ditado para cada coisa que nos acontecia.

Lembro-me bem do nosso hábito de deitar no chão gelado e colocar os pés no sofá. Era engraçado. Ele adorava colocar o pé onde deveria sentar e a cabeça onde poderia pisar. Acho que era uma mania que trouxe da vida. Virar tudo de ponta cabeça. Ser totalmente singular.

Mas o que eu me lembro mesmo é dele ser contra padrões.

Certa vez, entre goles de um copo d’agua, deixei escapar que queria algo, não sei exatamente o que. Mas só queria porque “todo mundo tinha”. Ele, de pronto, respondeu: “você não é boi no pasto, minha filha”.

Na época, essa expressão não me fazia muito sentido, mas, hoje, eu entendo exatamente o que ele queria me dizer. Afinal, cresci, e li sobre o tal ‘efeito manada’.

Meu avô provavelmente não conhecia esse termo bonito aí — que, talvez, ainda nem tivesse sido cunhado — mas, no fundo, queria me dizer que era totalmente contra o movimento.

Manada é um conjunto de animais da mesma espécie que vivem, deslocam-se e alimentam-se juntos. Aonde um vai, o outro vai atrás. Não há planejamento e nem tampouco capacidade crítica. É puro instinto de sobrevivência.

Na moda, é muito fácil perceber esse comportamento. Uma pessoa usa, a outra repete. A imitação cria um ciclo vicioso. Logo, todos, em um determinado tempo e momento histórico, vestem-se exatamente iguais.

Parece-me, então, que é instinto humano e mecanismo da mente o comportamento de acompanhar a massa. É algo preponderantemente irracional, comandado pelas nossas emoções. É o interesse em sermos homogêneos, iguais aos outros e pisar em suas pegadas.

Efeito manada, por vezes, é o resultado da diminuição da criticidade em face do aumento da necessidade de sentir-se incluído na comunidade. É o desejo de ser in, jamais, out.

Talvez, seja uma “boa” forma de se blindar das críticas e imposições sociais.

Ao fazer o que todo mundo faz, encontramos um lugar seguro. Nem que para isso precisemos fugir de nós mesmos, sufocar as nossas particularidades e dar as costas para a nossa essência.

Por óbvio, nós nunca seremos idênticos uns aos outros. Não adianta! Cada um de nós tem dons, talentos e predisposições próprias. Fugir disso é travar uma briga homérica consigo mesmo e, pior, ter de conviver com ela o resto de sua vida.

Então, com o tempo, percebi que o melhor mesmo é ser você. Abraçar as suas causas e validar os seus projetos. Negar-se não é o caminho. Quando isso acontece, você passa a ir a lugares que não quer, fazer coisas das quais não gosta e viver uma vida que não é sua. Tudo para, de alguma forma, adequar-se aos padrões sociais.

É legal entender que você carrega, sim, características do seu pai e da sua mãe, mas o seu somatório é maior do que tudo isso. Você é um remix da sua genética, dos seus valores e, sobretudo, dos estímulos a que se expõe. Então, daqui em diante, você assume!

Mas, antes, desnude-se da necessidade premente de validação externa. Esqueça aquela vontade absurda de agradar a todos. Ignore os likes, os compartilhamentos, os milhões de seguidores…

Nem todo mundo vai entender as suas escolhas. E mesmo que você se sinta incompreendido, apenas permaneça fiel àquilo que lhe dá sentido. Ocupe sua mente sendo você e não dê espaço para se importar com outra coisa.

Seguir a manada é permanecer na zona de conforto. Onde tudo é igual, normal e socialmente aceito. É não desafiar o status quo, é aconchegar-se num edredom quentinho, é cozinhar a vida em banho maria.

Outro dia, li trechos da obra de José Ingenieros — escritor, filósofo e professor catedrático — autor de O Homem Medíocre.

Ao ficar encantada com tamanha lucidez, insculpi em minha alma suas palavras.

Em tempo, Cortella diria que alma, sob um olhar não religioso, é tudo aquilo que eu me fiz, e não quero perder em mim, não quero perder de mim, porque não quero me perder.

Pois bem.

Ingenieros observa que o “homem medíocre é, por essência, imitativo e está perfeitamente adaptado para viver em rebanho, refletindo as rotinas, preconceitos e dogmatismos reconhecidamente úteis para a domesticidade”.

“Nunca fala, repete sempre. Não tem voz, mas eco. Vence, porque segue a correnteza. Em vez de viver a sua própria vida, deixa a sociedade vivê-la por ele”.

Uma luz se acende! Reflete sobre o mundo…

Agora, eu consigo ver que o objetivo do status quo é dragar todos para mediocridade. Lá dentro, tudo é mais fácil, menos criativo e mais reconfortante. Não há críticas, nem questionamentos. Não há, sequer, o benefício da dúvida.

A mediocridade amorna o homem, que, por isso, não deixa rastros, e nem faz sombra. Logo, somos medianos todas as vezes que não assumimos os nossos valores e não erigimos o estandarte de nossas escolhas.

O mundo medíocre é chato. Trata-se de uma grande linha de produção. Todos fazem as mesmas coisas, no mesmo tempo, na mesma configuração. Chega de padronização!

Jiddu Krisnamurti — filósofo hindu — certa vez, disse que não é sinal de saúde estar adaptado a uma sociedade profundamente doente.

E que você não deve aceitar as coisas como elas são, mas sim, entendê-las, mergulhar nelas e examiná-las. Usar o seu coração, a sua mente e tudo o que você tem para descobrir um jeito diferente de viver.

Brené Brown, ao estudar a conexão humana em O poder da vulnerabilidade, ensinou-me que pertencer não é o mesmo que se adaptar.

Adaptar-se é analisar situações e grupos de pessoas e, então, transformar-se de uma maneira tal que os outros permitam que você faça parte da turma. Pertencer é algo completamente diferente: é se mostrar e permitir ser você mesmo como realmente é.

Por isso, o pertencimento vai além, já que pressupõe a aceitação de sua autenticidade e imperfeição para, então, descortiná-los ao mundo.

A propósito, há quem diga que todo conselho é autobiográfico. Provavelmente sim. Por isso, esse texto não passa de um diálogo comigo. Um risco da caneta no papel. Um enlace da essência com a matéria. Traços de reflexões perdidas que remetem a um abraço…

É um manifesto para que eu nunca me perca. Para que, jamais, abandone aquela criança pequena — cheia de sonhos — deitada em chão gelado de ponta cabeça.

É para lembrar-me de abraçar a minha singularidade. Executar tudo que me move, jogar as coisas para o alto e sair do previsível. Afinal, é aí que a vida começa: no fim da minha zona de conforto.

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Amanda Fontes tem 26 anos, é advogada, graduada em Direito pela Universidade Federal do Maranhão. Curiosa e buscadora, ama desenvolver habilidades, sem caixa para descrição. Tem paixão pelas palavras e por sua capacidade de construir pontes. Afinal, quem não se comunica, se trumbica.

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Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do Site BH. Possibilitamos que o leitor conheça opiniões diversificadas sobre os assuntos em pauta nas mídias sociais. Sempre iremos expor visões diferentes para que o leitor se questione, questione o mundo ao seu redor e, principalmente, corra do senso comum. Quer ver o seu texto por aqui? Mande para redacaositebh@gmail.com

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Uma resposta para “Como encontrar um jeito diferente de viver”

  1. “Negar-se não é o caminho. Quando isso acontece, você passa a ir a lugares que não quer, fazer coisas das quais não gosta e viver uma vida que não é sua” ! É bem isso… E uma vida que não é a nossa nunca vai nos preencher!!

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