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POR Vitória Colvara

Milho Verde

Colunistas / 02.10.17

São Paulo. Onze da noite. Praça Roosevelt. Saída do Teatro Satyros. Cheiro de pipoca é melhor do que pipoca. E cheiro de milho cozido também.

– Moço, me vê um milho dos grandes, por favor.

Distraída com o reconhecimento da área, observando tudo e todos ao meu redor, não me dei conta de que ele já estava com a faca em ação, arrancando num só golpe toda a minha expectativa de segurar o milho com as mãos e ir mordendo aos poucos, me deliciando devagar. Quase não acreditei. Tamanha foi a minha surpresa que não me contive e gritei:

– Homem, pelo amor de Deus, O QUE É QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO?

– Estou colocando no pratinho pra ficar mais fácil pra comer, moça.

Mais fácil? Pensei eu. Como assim mais fácil? O milho possui um formato anatômico e ideal que se encaixa em qualquer boca, independente da idade. Tem no sabugo o seu apoio que serve também de prato e guardanapo. Me senti totalmente violada por aquele pratinho plástico acompanhado de uma colherzinha amarela. Tarde demais. Não teria como desfazer o ocorrido, algo que no direito ambiental chamamos de dano irreversível. Mas eu também não poderia simplesmente ir embora assim, como se nada tivesse acontecido. Lembrei dos livros de economia que li, e em tom muito amigável falei que ao oferecer o milho no pratinho de plástico ele estava não só atentando contra o meio ambiente, bem como desperdiçando o seu rico dinheirinho e boa parte do seu tempo tendo de ir comprar aquela plasticada toda. Ao que ele docemente respondeu:

– Sabe minha filha, eu acho que você está certa mesmo. Lá em casa ninguém come milho fora do caroço não. A gente só tira se for pra fazer mingau, pamonha, curau. Mas aqui, na rua, a gente tem que agradar a clientela e pra eles, o sabugo verde é sujo e o prato branco é limpo.

Que quis dar prosseguimento à prosa, mas preferi apressar o passo, pelos tantos alertas de perigos, embora eu não seja lá de ter medo de estar a qualquer hora em qualquer lugar. Me sinto sempre segura, não sei é motivo de doença ou se já se trata da cura.

A fala dele fez total sentido pra mim. Nós temos verdadeira obsessão pelo branco enquanto sinal de limpeza. Papel higiênico então, até parece que vai ser utilizado pela mais alta nobreza. Nessa ânsia pelo branco, extrapolamos no uso de alvejantes, embraquecendo até mesmo os coloridos recifes de corais, por excesso de protetor solar e deficiência de sais minerais. Quanto mais branco melhor, e dá-lhe aditivos químicos. O indestrutível copo de alumínio é brega, preferimos o de acrílico. Filtro de barro nem pensar, melhor o Europa, é mais chic. Branco é chic, é caro, é fino. E mata os peixes, mata as aves, contamina os rios.

Nós não precisamos de tantas embalagens, de sacolas para mais sacolas, de copinhos descartáveis para receber os amigos em casa ou beber água no trabalho. Somos todos responsáveis pela quantidade escatológica de resíduos que geramos e está em nossas mãos à possibilidade de amenizar nossos impactos nesse Planeta Água em que vivemos, nosso lugar comum. Vamos refletir?

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Vitoria Colvara tem 25 anos muito bem vividos. Apaixonada por viagens, crianças e livros. Advogada, professora de espanhol, kitesurfista e escaladora, não necessariamente nessa ordem. Ambientalista de corpo, alma e coração.

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Uma resposta para “Milho Verde”

  1. E as sacolas no supermercado? Duas mercadorias em cada sacola, é bizarro. Sempre peço para eles colocarem no minimo de sacola possível!

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