Foto Colunista

POR Bruno Pereira

O cinza é de João. Mas a cor é nossa

Colunistas / 30.01.17

Sempre me disseram que SP era uma cidade cinza. Depois eu li que era violenta e perigosa. Depois eu escutei que não existia amor em SP. Até que, depois do depois, eu conheci verdadeiramente SP j90mtgs. E depois, descobri um grande amor por aquela cidade. Não sei se por ela propriamente ou pelas pessoas de lá que amei. Ou se, em alguma medida, o amor de um contaminou o outro, e passei a amar assim. De qualquer forma, hoje eu tenho grande afeto por essa cidade de contrastes.

Os contrastes, como em vários outros lugares, é social, político, econômico, racial, era, inclusive, de cores. Descobri que ela não era tão cinza quando diziam. Ela tinha algumas cores espalhadas por grandes paredes que formam longos corredores que nos levavam a tantos lugares que o pensamento seria incapaz de chegar. Era uma cidade que tinha dado voz à arte popular, de rua, não elitizada, aquela que não precisa estar nos maiores museus do mundo e nem terem sido pintadas por pessoas com sobrenomes rebuscados para ser chamada arte.

Até que veio que alguém, que se diz tanto amante de arte, e, do dia para a noite, mandou pintar a cidade de cinza de novo. Aqueles longos corredores não nos leva mais a lugar algum. É como se o coração de SP não bombeasse mais o vermelho do vigor, mas o cinza da tristeza.

O recado tinha sido dado: arte não é para ser popular; não pode ser acessada por todos; não pode estar em qualquer lugar, principalmente na rua, talvez o lugar mais democrático que exista. Acho que muitos artistas morreram um pouco ao ver cada colorido se tornar cinza. E não me refiro somente aos artistas plásticos. Eu estou falando de algo maior, de todos os segmentos, daquilo que nos une, daquela necessidade de ser que nos torna artistas. É porque quando cala um, na verdade estão tentando calar todos. É uma ditadura disfarçada de cuidado. Só que, um cuidado que me cala, eu não quero.

É verdade que, apagando os grafites que coloriam SP, apagaram um pouco a nossa voz, mas também é verdade que sempre estaremos aqui para repintar, reconstruir, reescrever, cantar de novo, dando voz ao povo, ao negro, ao periférico, à mulher, ao pobre, ao índio, ao favelado, ao nordestino, aos que vestem branco, aos que lutam, à rua.

A arte mexe, remexe, transforma, muda, faz pensar, indaga. E é por isso que eles nos temem. Enquanto existir gente que vive pela e para a arte, nenhuma cor será apagada, nenhuma letra será mudada, nenhuma canção será silenciada, nenhuma obra será demolida, porque encontrará (r)e(s)xistência. Ainda não perceberam que a vida sem arte não teria som, nem cor, nem poesia. Ainda não perceberam que sem a arte a vida não seria sentida.

Mas deixe o cinza de João, ele não vai durar, porque o colorir vem de dentro de Maria e José, e de quem mais vier.

_____________

Bruno Pereira é carioca; 26 anos; virgem com ascendente em câncer e lua em libra; assino Bruno P.; beletrista pela UFRJ; pós-graduando em Literatura; professor; ator amador no palco da vida; modelo; penso bastante, falo às vezes, escrevo sempre: escrevedor, menos escritor.

_____________________________________________________________

Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do Site BH. Possibilitamos que o leitor conheça opiniões diversificadas sobre os assuntos em pauta nas mídias sociais. Sempre iremos expor visões diferentes para que o leitor se questione, questione o mundo ao seu redor e, principalmente, corra do senso comum. Quer ver o seu texto por aqui? Mande para redacaositebh@gmail.com

Share on Facebook0Tweet about this on Twitter

Deixe uma resposta

*

ARQUIVOS

BH NO INSTAGRAM

FOLLOW @BARBARAHELLEN

BH NO FACEBOOK