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POR Acsa Serafim

Poliamor? Não, obrigada

Outros / 18.02.16

Outro dia uma antiga colega de trabalho me contou que estava apaixonada e, pela primeira vez, estava embarcando numa relação poliamorosa.

Poliamor. Uau. “Amor moderno, sabe?”, ela me disse, com um ar muito orgulhoso, de quem sabia das coisas. “É o amor que está de acordo com a natureza humana”, ela completou. Parabenizei. Quer dizer que só existe um tipo de amor pra definir a natureza humana, é? Bacana. Não sabia. Que seja feliz. Que dê tudo certo! Admiro gente desprendida, sem amarras, gente que nasce com um cromossomo modificado e não consegue sentir ciúme.

Essa mesma colega um dia me perguntou: “você nunca quis experimentar?”. Parecia até que falava de uma droga. “Experimentar o poliamor?”.

É claro que já. Sou curiosa. Mas não deu certo. Não é pra mim. Sou monogâmica. Nasci pra ser de uma só pessoa.

Foi eu dizer isso e a cidadã começou a despejar sobre mim um verdadeiro sermão da montanha sobre como eu supostamente estava “desperdiçando” a minha vida ao ficar com apenas um homem. “Você tem que se permitir amar outros”, ela aconselhou, embora eu não tenha pedido nenhum conselho. “Estou bem e feliz, obrigada”, eu respondi. Não adiantou. No dia seguinte veio a mesma gororoba. Mandava textos sobre relacionamento aberto pra eu ler. Eu lia. Nada mudava. E continuava. E assim continuou até eu cortá-la de vez e pedir que parasse de encher o saco. Tava pior que testemunha de Jeová querendo levar o evangelho de porta em porta.

Olha só. O amor livre deixa de ser livre quando você, rei da poligamia, chato pra caralho, quer me dizer o jeito como EU devo levar a MINHA vida amorosa. Deixa de ser livre quando você vem dizer que o meu tipo de amor – o monogâmico – não funciona. Que amar a um só é “perder tempo”. Perder tempo por quê? Tempo de quem?  Na boa. Para de encher o saco e vai cuidar da sua vida.

Se o sentido da vida reside em surubas ou múltiplos casos amorosos sincronizados, eu dispenso. Tô feliz e plena tendo só um par de mãos pra segurar as minhas.

O poliamor, na teoria, é lindo. Todo mundo tem liberdade pra comer-se mutuamente, sem aguentar discussões ininterruptas da relação. Não é preciso dar tanta satisfação. Beija-se quem quer. Transa-se com quem quiser. Agora, se você tem liberdade pra dizer que o poliamor funciona e a monogamia não, eu tenho também pra dizer o que acho do poliamor: uma grande ilusão de merda.

Em primeiro lugar, não acredito que seja possível amar, de forma igualitária, ampla, profunda e vasta, equivalente, mais de uma pessoa ao mesmo tempo. Acredito que simplesmente não dá. Não acredito, também, que é possível se dedicar DE IGUAL FORMA a múltiplos relacionamentos, a múltiplos indivíduos. Pra mim, um único indivíduo já é um universo inteiro: de medos, sonhos, vontades, manias, gestos, detalhes. Um mapa enorme pra explorar, decorar, conhecer.

Quando alguém tenta insistentemente me convencer que o poliamor é a única saída, parece mais um grito desesperado que tenta unicamente convencer a si próprio. Eu amo o meu tipo de relação. Dedicado, forte, intenso, profundo, com uma só pessoa. É assim que eu aprendi a amar. E não tem a ver com posse. Ninguém é dono de ninguém. Tem a ver com escolha.

Não acho possível, simplesmente, estar com alguém agora, que pode estar com outros e outras mais tarde. Não me agrada a ideia de eu estar com um hoje, pra amanhã sair com outro namorado. Já tentei. Não rola.

Poliamor? Não, obrigada.

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Acsa Serafim é jornalista, atualmente apresenta o Culturama na TV Guará, escreve crônicas ao fim do dia. É compositora e carrega seu violão de vez em quando por aí para cantar suas músicas.

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2 respostas para “Poliamor? Não, obrigada”

  1. Tive um casamento de 10 anos no qual tive um filho. Tudo começou a mudar quando ela se declarou bi-sexxual dizendo que tinha vontade de transar com outras mulheres. Até aceitei de boa. Um dia ela foi com a prima dela numa casa de swing e transou com 3 mulheres e o namorado numa noite. Obviamente fiquei fulo da cara e depois daquilo a relação se desgastou até terminar.

    Se eu puder dar uma dica, se quer fazer uma suruba faça isso quando estiver solteiro. Se for pra amar alguém, amar é se doar, é compromisso. E pior ainda, dizem que no tal poliamor há “lealdade” e não “fidelidade”. Hoje digo, poliamoar é o caralho *&&**&* poliamor é fazer uma suruba e chamar de família. Vá pra PQP … desculpe o desabafo…

  2. Concordo que m cada vírgula e nunca me identifiquei tanto com um texto. Parabéns

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