Foto Colunista

POR Isabel Fonseca

Meu pai me ensinou a amar

Colunistas / 03.12.15

Por mais romântica que eu seja, a ideia de me unir voluntariamente a outro ser humano pelo resto da vida é um pouco assustadora. Jurar na frente de Deus uma lista de situações, onde eu prometo, não importa como, persistir nesse amor, dá até uma tremedeira nas pernas. Digamos que eu tenha bons exemplos em casa, meus pais são casados há 21 anos. Erros aqui, discussões acolá, umas toalhas molhadas em cima da cama vez ou outra. Nenhum dos dois é perfeito, nada fora do habitual para um relacionamento que resiste há mais de duas décadas.  Mas não, muito obrigada, até pouco tempo atrás eles não me convenciam. E era exatamente do que eu precisava: ser convencida de que o negócio funciona.

Eis que em uma bela e ensolarada tarde de terça do mês de maio, minha mãe foi diagnosticada com câncer de mama. Sim, aquela doença onde umas celulazinhas ordinárias e egoístas resolvem se multiplicar e invadir todas as dimensões do corpo. Desde o momento em que recebi a notícia até hoje, minhas lágrimas encheriam uma piscininha de plástico para bebês. Mas meu pai sorriu. Pensei que era uma fase de negação, abstração. Só que o desempenho desse homem ao longo dos meses de tratamento foi surpreendente.

Amar quando o sujeito do seu amor é uma pessoa saudável, bonita, bem cuidada e que cuida de você, sonha os seus sonhos, planeja o futuro em conjunto, tem vivacidade e vocês estão em sintonia, é bom. É fácil, é romanesco, é o céu na terra. Mas amar o outro quando ele está despedaçado, fraco, triste e vulnerável da pior forma possível, bem, é amor mesmo. Na forma mais real e verdadeira. É o amor palpável, tangível, autêntico, concreto. Que foge de todas as idealizações humanas, porque não existe teoria que traduza o que se foi feito em gestos.

Minha mãe se transformou em uma espécie de “esposa-bebêzona” para o meu pai. Ele aprendeu a imitar desde o médico oncologista até as visitas aleatórias que chegavam aqui em casa para fazê-la rir. Sambar? Quem disse que ele sabe sambar? Mas as tentativas arrancavam gargalhadas dela. Desenvolveu um talento excepcional para fazer mingau, massagem nos pés e aplicar anticoagulantes. Minha mãe passou mais de um mês internada e ele também: dormiu incontáveis vezes em uma poltrona reclinável, mas acordava no outro dia com algum bordão motivacional incrível. Brigava para ela comer, brigava com as enfermeiras, brigava comigo e brigaria com o mundo inteiro se fosse preciso. A quimioterapia virava quase um encontro à luz de velas. Pediu licença do trabalho e eu perdi as contas de quantos procedimentos médicos ele quis invadir para saber se tudo ocorria bem com esta senhorita. Virou especialista em remédios fitoterápicos anticâncer. A conchinha, com tantos contratempos, cansou de acontecer ali mesmo na cama do hospital. Abriu mão dos livros tão amados no quarto para dar lugar a uma surra de remédios que ela ainda precisa tomar. Resolveu deixar a suíte do casal, foi dormir no quarto do meu irmão. Mas nas noites em que fui ao quarto aninhar a cabeça no ombro dela, ele já estava lá há muito tempo. Desabrochou uma paciência no meu pai que ele mesmo desconhecia. Sem mencionar a força e coragem.

Eu não fazia a menor ideia do que era o amor. Na minha ingenuidade, se resumia a fidelidade, companheirismo, respeito e alguns sacrifíciozinhos saudáveis e necessários, afinal, você quer ver aquele outro ser humano feliz. Mas é um sentimento muito maior. É prezar involuntariamente por um individuo. É uma gangorra. Você vai se segurar ali em baixo o máximo de tempo possível. Vai ser o sustentáculo, o alicerce para que o outro possa aterrissar em segurança e as coisas possam voltar ao normal. Para que vocês consigam buscar o reequilíbrio.Tenho certeza que meu pai se viu desesperado diversas vezes diante dessa situação. Mas é como ele me disse uma vez, mesmo que tenha esquecido em determinado momento, distante de todo esse cenário nebuloso: “Você não entra em um relacionamento para ser feliz. Entra para fazer, única e exclusivamente, a outra pessoa feliz.”

_____________

Isabel Alice, 20 anos. Não sabe se definir, não sabe o que quer da vida, mas tem a petulância de dizer que você não vai encontrar um ser humano mais distraído, ansioso e lunático que ela.

_____________________________________________________________

Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do Site BH. Possibilitamos que o leitor conheça opiniões diversificadas sobre os assuntos em pauta nas mídias sociais. Sempre iremos expor visões diferentes para que o leitor se questione, questione o mundo ao seu redor e, principalmente, corra do senso comum. Quer ver o seu texto por aqui? Mande para redacaositebh@gmail.com

Seja o primeiro a curtir.
Share on Facebook12Tweet about this on Twitter

6 respostas para “Meu pai me ensinou a amar”

  1. Lindo e emocionante texto, Isabel!

    Faz tempo não vejo e não tinha notícias de você e sua família. Linda e querida família por sinal!
    Em se tratando de seus pais,não poderia ser diferente! Sua mãe e seu pai sempre lutaram juntos, planejaram juntos e são exemplos.
    Nesse momento e para todo o sempre, sua mãe é mais do que merecedora de todo esse amor, carinho e cuidado.
    Seu pai um grande homem e você uma filha que demostra ter aprendido o amor ao lado deles. Que Deus os abençoe e cure sua mãe brevemente. É a nossa torcida! Bjos pra vocês. Poliene Schalcher e família.

  2. Lindo texto Isabel,meu carinho a você e todos os familiares

  3. Que lindo texto!Que lindo esse amor de total entrega, como jurou diante de Deus: Na saúde e na doença. Parabéns pela sua coragem de testemunhar algo íntimo da sua família.

Deixe uma resposta

*

ARQUIVOS

BH NO INSTAGRAM

FOLLOW @BARBARAHELLEN

BH NO FACEBOOK