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POR Acsa Serafim

A culpa é minha

Colunas / 01.06.15

Não dá pra prever quando você vai ser assaltado. É uma espécie de loteria às avessas. Você nunca torce pra que isso aconteça, mas acredite: se você mora no Brasil, sobretudo em metrópoles marcadas pela desordem política e judiciária, uma hora ou outra você será o contemplado com uma arma na cabeça. Ou uma faca no pescoço, na melhor das hipóteses.

Há duas semanas, a contemplada fui eu. Desci do meu ônibus às 6:30 da manhã, como de costume. Nos fones de ouvidos conectados a um celular meia-tigela no meu bolso, Elton John cantava Sacrifice baixinho. Era segunda-feira e eu estava mal-humorada, como todo bom cidadão fica ao ter que ir trabalhar.

Foi então que, num cruzamento atrás de um supermercado no bairro do São Francisco, dei de cara com Ele. Isso mesmo: Ele. Escrevo “Ele” com um E maiúsculo porque é assim que nos referimos aos seres divinos, metafísicos. E o ladrão que me assaltou era quase isso: uma entidade. Um ser que transcende a matéria, o concreto. Era um Jesus às avessas. O próprio diabo.

Pois bem. Ele levantou a camisa, exibindo uma faca maior que meus problemas, escondida dentro da bermuda. Fechou a cara, pra mostrar a que veio. E ordenou, como um verdadeiro ditador:

-Passa a porra do celular. Não vacila, não.

Eu desconectei os fones de ouvido, amaldiçoando internamente suas futuras gerações, e entreguei a bolsa. O rapaz me olhou de cima abaixo com uma enorme condenação no olhar.

-Não quero a bolsa, não, rapá.

Realmente. Ele queria também a minha dignidade, minha alma, minha paz de espírito. Tirou a faca da bermuda e a pressionou contra minha barriga.

-Fica com essa merda aí e me dá só o celular. Bora, porra!

Obedeci, evidentemente. Mamãe sempre me disse que com o diabo a gente não brinca. Entreguei o celular, como manda o manual de Bom Comportamento Durante um Assalto.

-Muito bem. Agora vira pro outro lado e some, porra.

Um ladrão eficiente, esse. Cedinho, nem sete da manhã ainda, e o sujeito estava lá, íntegro, impecável como todo trabalhador brasileiro, batendo seu ponto e assaltando mais um otário. Ou otária. Eu.

Eu fui embora, chorando a morte da bezerra, chorando pelo meu celular com toda a discografia do Oasis, do Marvin Gaye e do Paul McCartney que Ele havia levado. As fotos com o namorado, as mensagens com os amigos. Mas, mais do que isso, chorei por me sentir violada, humilhada.

Ao contar o ocorrido para os colegas, tive que escutar um grosseiro: “mas tu também é burra, hein, fia? Andando com fone de ouvido na rua. Tava pedindo pra ser assaltada”. Mas é claro.

A culpa é sempre da vítima, uma imbecil incorrigível, que só quer o direito de relaxar ouvindo sua música preferida em plena luz do dia, e, quando o faz, leva uma bela de uma coronhada de revólver na cabeça e um trauma pro resto da vida. A culpa é dela, claro.

Dois dias depois o mesmo ladrão ia me assaltando novamente. Quando percebeu que já havia me abordado dois dias antes, desviou a rota, mas me encarou profundamente, como se sussurrasse: “eu te conheço, dona. Eu te conheço”. Desta vez, o meliante estava de bicicleta.

Devia ter comprado a bicicleta, roubado de alguém ou trocado com o celular que ele roubou de mim. Ao vê-lo, tive outra crise de choro e cheguei ao trabalho aterrorizada. Mas a culpa era minha, que estava andando cedo demais em rua deserta. Né? Santa ingenuidade.

Passou-se uma semana apenas e o mesmo cidadão de bem, Ele, a entidade, apareceu novamente. Era segunda-feira e chovia muito. Eu, às 6:46, descendo uma rua de uma nova rota que eu havia traçado para escapar de novos assaltos, me vi sozinha com Ele, sem outra pessoa para testemunhar qualquer eventualidade. Olhei em seus olhos e Ele, ao olhar de volta, fechou a cara e questionou: “tá olhando o quê, porra?”.

Comecei a chorar de novo. Ele seguiu reto e eu fiquei esperando alguém passar para descer a rua comigo. E, ao chegar ao trabalho, tive uma crise de nervos e até tratei mal a alguns dos meus colegas, a quem, depois, pedi sinceras desculpas por tudo. Minha cabeça não tava boa.

Desde então, eu tenho vindo trabalhar rezando, no mínimo, uns oito pais-nossos e pedindo a Deus que eu consiga chegar inteira no escritório. Olho para todos os lados e qualquer pessoa que se aproxima, a pé ou de bicicleta, já me provoca profundo temor. O coração acelera, começo a suar e os olhos lacrimejam.

Anteontem sonhei com o ladrão. Eu dava uma festa, Ele era um convidado e, no meio de um brinde que Ele mesmo propunha, anunciava um assalto. Aí eu acordei.

É uma pena que na vida real, essa de todo dia, a gente não acorde nunca de um pesadelo.

Mês que vem posso ser assaltada de novo, ou talvez nunca mais o seja. Mas o ladrão e eu já nos vimos tantas vezes que já tô quase considerando chamá-lo pra tomar uma cerveja, falar da vida, dos bons ventos que têm soprado pra Ele, muita gente pra assaltar, etc. Da última vez que o vi ele estava com piercing na sobrancelha, um adereço novo e ousado, talvez conquistado com um novo roubo.

Para a esquerda brasileira, entretanto, o ladrão é sempre vítima do sistema, jamais tem poder sobre as próprias escolhas, é só um coitado. E eu, é claro, sou a verdadeira culpada, por ser uma burguesinha de merda, parte da elite branca, com esses termos todos bem cafonas que a esquerda gosta de usar.

O ladrão é mesmo um cidadão de bem, né, gente? Um homem boníssimo. Da próxima vez que eu for assaltada, vou dar um abraço nele e pedir desculpa por qualquer coisa. Desculpa, Ladrão. Eu sou mesmo a culpada por tudo.

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Acsa Serafim é jornalista, atualmente apresenta o Culturama na TV Guará, escreve crônicas ao fim do dia. É compositora e carrega seu violão de vez em quando por aí para cantar suas músicas.

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15 respostas para “A culpa é minha”

  1. Tive que comentar o seu post que aliás ficou muito bom. Verdade, sempre é culpa da vítima e não importa o quanto você esteja mal por isso irão culpá-lo por isso.

    Ontem aconteceu comigo, e hoje, estou me sentindo totalmente violado e humilhado pelo acontecido. Aconteceu basicamente um tumulto no metrô e um cara me empurrou e outro pegou meu celular, celular que demorei meses para juntar o dinheiro e comprá-lo, e agora eu fico pensando mil e uma maneiras de como eu podia escapar daquilo. O pior nem é ter levado meu celular e sim todos me apontando como culpado e que não era para eu estar ali e blá, blá, blá. Agora toda hora eu sinto a sensação que eu senti na hora do roubo: o meu celular saindo do bolso. E logo após isso vem uma sensação muito ruim. Não desejo isso para ninguém. E agora eu seguirei com um celular ruim por alguns anos, pois, não quero gastar o pouco dinheiro que tenho para outra pessoa levar em alguns segundos.

    Tinha tantas coisas no celular, por exemplo, fotos de pessoas que não irei ver tão cedo, álbuns e mais álbuns de música boa, conversas maravilhosas e momentos fantásticos capturados por aquela simples câmera. É hora de dizer adeus.

  2. O pior é quando o acontecido foi um golpe e você se vê no papel de “otário”, aconteceu comigo hoje, fui comprar um celular e acabei sem dinheiro nenhum… Me sinto totalmente culpado e vulnerável pois sempre critiquei quem caía nessas coisas e sempre achei que era imune a isso… Pois é…

  3. Passei por uma situação parecida alguns meses atrás, me senti um inútil e humilhado quando vi um revolver apontado no meu rosto por causa de um celular. Hoje em dia me pergunto se uma vida vale mais que um aparelho tão fútil.

    • Júlio, pois é. Parece que o celular vale mais do que uma vida e nós sabemos que não é bem assim. Ainda bem que o que o dinheiro compra é barato… Que bom que você está bem.

  4. Excelente texto! Hoje, realmente, temos um cuidado ao andar na rua como se nós fossemos culpados se algo vir a acontecer.

  5. Texto sensacional. O que é mais triste é a o sentimento de “não dá pra fazer nada, só rezar” que todo mundo carrega. Rezar pra não ser a escolhida do dia por um marginal, por um tarado, por um bêbado no trânsito…

  6. Parabéns pelo texto. Foi possível passar com clareza e sinceridade a situação humilhante e assustadora que é ser assaltada. A realidade é triste mas acabamos nos sentindo culpadas por usar um brinco mais bonito, um cordão de família, um celular na mão.. QUando na verdade, os assaltantes, os políticos e o sistema corrupto são os verdadeiros culpados pelo sentimento de inseguraça que se alastra pelo país e mais especificamente pela cidade de São Luis.

  7. A culpa é da vitima mesmo,acrescente-se a isso se vc tiver que registrar um B.O. , daí que a culpa aumenta e vc sai pedindo perdão a Deus por ter sido assaltada.
    Parabéns pelo texto.

  8. Sei que pode soar bizarro, mas eu ri bastante em alguns pontos. Bandido é uma entidade mesmo e a experiência de ser assaltado parece filme de terror…

  9. Nossa, imagino a situação que você passou. Já passei por um assalto também e fiquei aterrorizada assim como você, até hoje não posso ver qualquer homem de bicicleta perto de mim que as pernas tremem, o coração pula e já fico praticamente pronta. É muito triste ver isso acontecer, e ver que como você, eu, várias pesssoas de bem, que acordam cedo e lutam para conseguir o que querem são abordadas por eles meliantes, vagabundos e preguiçosos, que tiram vantagem dos outros.
    Hoje mesmo vi um post, compartilhando a história de um assalto a um senhor lá no espigão, levaram tudo dele, ele precisou pedir uma toalha em um hotel lá perto. Somos humilhados o dia todo. Não tem mais hora, nem local… Só peço a Deus que proteja você e mais tantos cidadãos de bem que não tem culpa nenhuma, e só sofrem os prejuízos desses acontecimentos tristes que acontecem cada vez mais aqui em São Luís.

    • Raissa, essa história que você comentou me fez pensar o quanto hoje em dia não é só roubar, também somos humilhados durante esse tipo de violência. E também pensei o quanto poderia ser bem pior, pois esse senhor estava totalmente vulnerável a coisas muitos piores: sequestro, espancamento etc… Enfim, só nos resta mesmo rezar, confiar nas autoridades e sempre denunciar essas situações.

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