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POR Vitória Colvara

Há menos beleza no salão de beleza

Vitória Colvara / 24.04.17

A ideia de frequentar salão de beleza sempre me aterrorizou. Quando criança, vez ou outra, acompanhava minha mãe e tentava encarar como uma aventura o fato de ter que andar por entre os carrinhos de esmalte sem derrubar nenhum, fugir do cheiro de tinta e comer guloseimas como brigadeiros, pipoca e otras cositas más! Um belo dia, voltando da aula de ballet na qual me sentia uma patinha feia e despenteada diante de tantos cisnes cor de rosa, eu resolvi parar no salão e pintar as unhas.

Os atrativos para as crianças estão cada vez maiores. Desde florzinhas e bichinhos a toda série de desenhos e afins. As manicures realizam sobre as pequenas unhas infantis verdadeiras obras de arte com palito e esmalte. É surpreendente mesmo, muito lindo, sutil e delicado. Pronto, tinha uma flor em cada um dos meus dez dedos, mas voltando caminhando para casa, peralta como só eu, algumas das flores borraram e o que era quase um realismo se transformou em uma pintura abstrata. Mantive daquele jeito, mesmo que minhas amigas da escola tivessem achado horrível. Eu gostei. E nesse dia aprendi que antes de criticar algo que não gosto em alguém, é importante saber se a pessoa se sente bem com isso. Cada um sabe de si.

Os anos foram se passando e freqüentar salões deixava de ser uma opção e passava a incorporar o cotidiano de qualquer adolescente. Aos poucos ia me acostumando, tentando ver o lado bom, me divertindo com os cabelereiros e ouvindo história de mulheres que tinham uma percepção de mundo surpreendentemente diferente da minha. Lembro perfeitamente da Rayelma que aos 22 anos estava grávida e sempre falava com um ódio muito grande do pai do bebê: “aquele filho da puta desgraçado, mulherengo, vagabundo que não agüenta ver um rabo de saia passando na frente dele mesmo com a mulher buchuda”.

Quando me perguntavam se eu tinha preferência por alguém, respondia que não. Eu sempre gostei de conhecer pessoas novas, conversar, experimentar. E hoje reflito sobre isso chegando à conclusão de que a fidelidade talvez seja um grande desafio para mim. Por mais que eu adorasse a Ray, eu a trocava pelas demais com uma facilidade incrível, e com essa mesma facilidade eu mudava de salão, sempre priorizando os que ficavam perto da minha casa, para ir e voltar caminhando.

Aos poucos as pessoas têm perdido o gosto de caminhar pela cidade. A caminhada ganhou o status de atividade física ou recomendação médica a ser praticada em horários e dias específicos. Até hoje recuso aos convites para correr feito pelos amigos e pelo meu pai, e ainda brinco, que só corro se for de ladrão ou atrás de alguém. Mas caminhar continua fazendo parte da minha rotina, por mais difícil que isso seja em Brasília, uma cidade planejada para carros.

Voltemos aos salões de beleza e a sua relação com a natureza, afinal de contas, é para falar sobre meio ambiente que eu estou aqui, não é mesmo? Pois bem, como uma boa libriana, sempre entrava em crise no momento de escolher a cor do esmalte. Através de uma rápida pesquisa, conclui que muito mais complexo do que decidir entre obsessão e volúpia, ao pintar as unhas eu estaria agravando um problema bastante sério no Brasil: resíduos. Não há reciclagem ou reutilização para os esmaltes e aqueles mínimos pincéis. Retirar o resto do produto de dentro do vidrinho demandaria um custo maior do que o de meramente descartá-lo. Alem disso, milhares de luvas e botas plásticas e as lixas e os algodões e a acetona e enfim, os inúmeros produtos utilizados uma só vez, por uma só pessoa e que são diariamente descartados na natureza.

Há mais de um ano os salões já não fazem mais parte da minha vida, exceto para cortar o cabelo. Tomei essa decisão por inúmeros fatores combinados que vão desde os esportes que pratico, a minha falta de paciência e até a questão econômica e ambiental envolvida. Longe de tentar convencer alguém a abrir mão desse costume, faço apenas um desabafo minimamente reflexivo.  Esse é um mercado que cresce muito no Brasil, gera inúmeras oportunidades de emprego e agora até os homens também são alvos dessa indústria e estão cada vez mais preocupados com a aparência.

Conheço muitas mulheres que se sentem extremamente bem com suas unhas longas e pintadas, mas acho que é interessante repensar alguns hábitos que adotamos simplesmente para seguir o fluxo. Outro dia, na fila do metrô em São Paulo, uma moça muito simpática e cheirosa pediu para que eu enfiasse a mão na carteira dela e pegasse o dinheiro para ela comprar o bilhete; ela acabara de voltar do salão e não queria borrar as unhas. Não é só para pegar a carteira que as unhas pintadas atrapalham, lavar roupas e louça é um caos, porque de repente você vê escorrer pelo ralo, lasquinhas de esmalte e o seu dinheiro.

Por viver dentro do mar, a cor não durava muito e bastava uma pontinha sair para minha mãe aparecer subitamente com um potinho de acetona e algodão. Eu preciso falar sobre o impacto ambiental da acetona na natureza? Não né?! Mas posso falar desse impacto sobre as suas unhas, pois quanto mais você pinta, mais você usa acetona e mais fracas elas vão ficando. E com unhas fracas, você precisa consumir um esmalte especial e fortalecedor. Nossas unhas são suficientemente fortes e não precisam disso. De tão fraquinhas elas param de crescer ou crescem e quebram, mas como o bonito são unhas grandes, nos convencem a fazer unhas de silicone, gel, postiça, acrílico. Um círculo vicioso que financiamos e jamais questionamos.

Sim, claro que existe uma série de problemas ambientais muito mais sérios do que a disposição final nos lixões dos produtos utilizados em salões de beleza, e é lógico que o impacto que deixo de causar com essa escolha, acabando causando com outras…  Mas, obedecendo a uma linda fábula, eu gosto de agir como um beija-flor apagando um incêndio que, ao ser criticado pelo elefante, responde feliz: “eu estou fazendo a minha parte, contribuindo com o que posso, mesmo que sejam apenas gotinhas de água. Se você me ajudar, com essa sua enorme tromba, logo apagaremos o fogo”. Vamos juntas?

“Baby você não precisa de um salão de beleza, há menos beleza num salão de beleza, sua beleza é bem maior do que qualquer beleza e qualquer salão” – Zeca Baleiro

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Vitoria Colvara tem 25 anos muito bem vividos. Apaixonada por viagens, crianças e livros. Advogada, professora de espanhol, kitesurfista e escaladora, não necessariamente nessa ordem. Ambientalista de corpo, alma e coração.

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